
Modelos e pesquisas apontavam vantagem a Flávio Bolsonaro, mas transferências de votos de candidatos eliminados, menor queda da abstenção e migração de eleitores explicam a virada.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reverteu uma desvantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos e venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno com cerca de 64,2 milhões de votos, um acréscimo de cerca de 10,4 milhões em relação ao primeiro turno, segundo os números informados pelo TSE e relatados pela reportagem.
O resultado contrariou projeções divulgadas durante a campanha. Em 8 de outubro, pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) publicaram um modelo que dava 19% de probabilidade de vitória a Lula, a partir de uma pesquisa Datafolha que mostrava vantagem de Flávio. A modelagem projetava 52,2% para Flávio e 47,8% para Lula no segundo turno.
Pesquisas divulgadas na véspera da votação decisiva também indicavam vantagem numérica do senador. Em 24 de outubro, levantamento do BTG/Nexus apontou 50,5% dos votos válidos para Flávio e 49,5% para Lula; aplicando um modelo de eleitor provável, a mesma pesquisa indicava 52,4% a 47,6% a favor de Flávio, conforme a matéria.
Um estudo de matemática eleitoral produzido por economistas do BTG Pactual, Tiago Berriel e Mateus Della, examinou 27 cenários combinando transferências dos votos de candidatos eliminados e movimentos de entrada e saída de eleitores entre os turnos. Em nenhuma das combinações analisadas Lula aparecia como vencedor no modelo, e o cenário central projetava uma vitória de Flávio por cerca de 3,17 milhões de votos.
Os autores também calcularam que, para que a virada ocorresse somente por mobilização de abstenções, seria necessária a entrada de cerca de 12,6 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno, com uma distribuição de 70% para Lula e 30% para Flávio — hipótese não observada na votação real.
Do lado prático, três fatores agregados explicam a transformação: transferência de votos dos candidatos eliminados, aumento líquido do comparecimento e redução dos votos brancos e nulos. No primeiro turno, Flávio somou cerca de 56,1 milhões de votos e Lula, aproximadamente 53,8 milhões; os demais candidatos totalizaram cerca de 9,3 milhões. Entre os turnos, Lula teve um ganho maior que Flávio — cerca de 10,4 milhões contra 3,7 milhões — o que resultou na diferença líquida de 6,6 milhões entre os acréscimos.
Parte das candidaturas derrotadas tinha inclinação política mais próxima da direita: líderes como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) declararam apoio a Flávio no segundo turno, mas a transferência de votos não se deu de forma homogênea e não foi suficiente para sustentar a vantagem inicial do senador.
Além disso, a abstenção estimada por algumas projeções em torno de 21% acabou sendo menor no segundo turno — em torno de 19,2% — o que alterou o universo de votantes e contribuiu para a redistribuição favorável a Lula. A combinação desses elementos levou à surpresa eleitoral registrada nas 27 unidades da Federação.
*Revista Oeste