Militante indicado por Lula põe em risco credibilidade do IBGE

| Foto: O economista Márcio Pochmann enfrenta uma gestão marcada por turbulências à frente do IBGE

À frente do IBGE desde 2023, sob indicação do presidente Lula (PT), Márcio Pochmann tem acumulado denúncias de perseguição, censura, autoritarismo e até mesmo de propaganda política nos conteúdos publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Entre as decisões que levam à crise de credibilidade, está a exoneração de servidores em cargos estratégicos, como Rebeca Palis, responsável pelo cálculo do PIB. A decisão gerou ruídos sobre “maquiagem” de dados. Após a sua saída, outros três integrantes da equipe deixaram suas funções em solidariedade à colega.

Menos de dez dias após a demissão de Palis, foi exonerada Ana Raquel Gomes da Silva, gerente de Sistematização de Conteúdos Informacionais. Ela era responsável pela revisão técnica de publicações do IBGE e denunciou, ainda em 2025, a suposta propaganda política do governo de Pernambuco na publicação “Brasil em Números”.

Após o caso se tornar público, Pochmann alegou que o IBGE recorreu a parcerias para viabilizar a publicação do material devido à falta de recursos e que não havia “nenhum ferimento à forma” de tratar as informações.

Para o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da República, o caso foi mais uma das “diversas outras exonerações e remoções arbitrárias” da gestão Pochmann, que vem conduzindo “uma caça às bruxas” contra servidores que fazem uma defesa técnica do Instituto.

O sindicato considerou que a publicação contém “elementos de propaganda de governo” e está “maculando o caráter imparcial e técnico historicamente reconhecido da instituição”.


A publicação traz o nome da governadora pernambucana Raquel Lyra e menciona ações e prioridades de seu governo no atendimento à população, além de citações a diferentes programas de sua gestão. Os trechos foram criticados pelo corpo técnico do órgão, mas foi mantido por decisão da presidência.

Para o economista Marcos Holanda, um IBGE “apolítico e eminentemente técnico é essencial para a economia”. Ele explica que os indicadores publicados pelo Instituto orientam decisões do setor privado e também a construção de políticas públicas. “Não deve haver espaço para militância em um Instituto de estatística: simples assim!”.

“O cálculo do PIB Agrícola, por exemplo, é feito em cima de ‘previsões’ de safras. Basta ter essas previsões viesadas para gerar desconfiança. É um ônus que o IBGE tem que assumir: tem que ser e parecer independente e confiável”, analisou o especialista.

O economista não questiona as estatísticas do IBGE, reconhecidas internacionalmente, mas alerta que o órgão deve “ser e parecer independente e quando a direção superior adota posição de militância o ‘parecer’ fica prejudicado”. Para Holanda, as movimentações atípicas no quadro técnico da instituição indica que existem problemas.

Segundo ele, os indicadores do IBGE permitem medir o desempenho da economia e das políticas públicas e identificar o que está indo bem e o que precisa ser mudado. “Isso é fundamental no setor privado e no setor público. Imagina se você não confia no termômetro e não sabe se está com febre ou não?”.

Para o Ministério Público, a criação de uma entidade paralela, com “possível captação de recursos próprios e atuação em áreas sensíveis de produção e tratamento de dados oficiais”, revela um “quadro institucional preocupante”. O procurador Júlio Marcelo de Oliveira entendeu que a medida não poderia decorrer de mero ato administrativo da Presidência.

“A condução do IBGE com viés autoritário, político e midiático pela gestão Pochmann é a verdadeira causa da crise em que se encontra a instituição. Sua gestão ameaça seriamente a missão institucional e os princípios orientadores do IBGE, na medida em que impõe a criação da Fundação IBGE+ como única alternativa às demandas por recursos financeiros para a realização das pesquisas e projetos que compõem nossa agenda de trabalho”, afirma carta assinada por diversos servidores.

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