
Como incumbente visando ficar no cargo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repete Jair Bolsonaro (PL) e Dilma Rousseff (PT) com pacotes de bondades aos eleitores. A cinco meses do primeiro turno, no entanto, o petista mantém 40% de avaliação ruim/péssimo pelo Datafolha e está empatado com Flávio Bolsonaro (PL) nas projeções de segundo turno.
Além do alto endividamento das famílias, boa parte da explicação, segundo especialistas, está nos preços dos alimentos, que ofuscam tanto a recente recuperação da renda média quanto o desemprego em níveis historicamente baixos.
“Jair Bolsonaro perdeu a eleição pelo choque de preços dos alimentos no pós-pandemia. A popularidade de Joe Biden [nos EUA] também sofreu muito com isso. Para Lula, a agenda do custo de vida será decisiva”, afirma Christopher Garman, diretor-geral para as Américas do Eurasia Group.
Embora o Brasil tenha tido alguns meses de deflação nos preços de alimentos e bebidas no ano passado, eles voltaram a acelerar em 2026. “Para o brasileiro, segue a percepção de que tudo ficou mais caro e de que ele não avança na vida”, diz Garman.
Segundo o Datafolha, mesmo entre os mais pobres – com renda familiar mensal até dois salários mínimos e que tendem a ser mais favoráveis a Lula a taxa de ruim/péssimo subiu de 24%, em dezembro de 2024, para 33%, em abril deste ano. No mesmo período, o percentual avançou de 22% para 27% no Nordeste, sua fortaleza eleitoral.
Percepção
Pesquisa Genial/Quaest de abril mostrou que 72% acham que os preços dos alimentos subiram, ante 58% que disseram o mesmo em março. Os que afirmaram que seu poder de compra caiu em relação ao ano passado subiram de 64% em março para 71% em abril.
Há também um movimento de precarização do mercado de trabalho, em que o dinamismo na área formal e informal esconde a primazia na criação de vagas que pagam menos que a média salarial da economia.
Renda
Em fevereiro, a massa de renda disponível das famílias após gastos essenciais era de 21%, segundo a Tendências. No início de 2024, chegava a 23,6%. É uma deterioração expressiva em pouco tempo, diz Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da consultoria.
“A inflação de alimentos no domicílio aumentou 12% desde que Lula assumiu. Não à toa isso tem relação com sua popularidade”, diz Ribeiro. “A renda média subiu no período, mas alguns gastos específicos aumentaram mais”.
Na consultoria MB Agro, a projeção para a inflação de alimentos para este ano dobrou, de 2,5% para 5%.
Relatório do Banco Mundial de abril também projeta inflação de alimentos três pontos percentuais maior para este ano e o próximo ante estimativa feita em janeiro.
Para André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV-Ibre, o cenário otimista para a inflação geral e de alimentos fica cada vez mais distante. “Com o petróleo se sustentando acima de US$ 100 o barril, as pressões vão se acumulando”.
Num cenário mais pessimista, a inflação geral deste ano chegaria a 5,4% (o teto da meta é 4,5%), e a de alimentação no domicílio, 6,6%.
Braz lembra que em abril o preço médio das matérias-primas brutas no IGP-M da FGV acelerou 5,78%, ante 0,67% em março. “Isso ainda não chegou aos bens finais ou intermediários, mas chegará em caso de continuidade da guerra”.
*Folhapress


